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CRÔNICAS


O menino grande
Wesley era um rapagão com mais de um metro e oitenta de altura, moreno claro, muito forte fisicamente, deveria ter – não sei ao certo
13.JULHO.2014
Todas as vezes que me recordo desse menino grande eu sinto calafrios e o meu coração acelera. Esse fato representa para mim um divisor de águas entre a meninice e a adolescência crítica; o despertar da consciência para a existência de classes sociais, de riqueza e pobreza, de pessoas sadias e pessoas doentes, de gente boa e gente má. Wesley era um rapagão com mais de um metro e oitenta de altura, moreno claro, muito forte fisicamente, deveria ter – não sei ao certo – uns vinte anos, mas com a cabeça de um menino de doze, no máximo. Era o nosso bobo da corte. Fazia tudo o que mandávamos (até brigar ele brigava se fosse preciso). Andava sempre descalço e seu pé enorme era mais um motivo de apelidos. Seu narigão sempre escorrendo e camisa abotoada fora de ordem. Sua voz, essa sim, era de homem, mas a cabeça não funcionava direito - o coitado deixou a escola antes de completar da primeira série do fundamental. Mas, a gente, gostava dele de qualquer maneira, era a ingenuidade, a simplicidade e generosidade – todas juntas – numa só pessoa. O nosso dia era dividido entre a escola, o banho de rio e o futebol no “campinho de vôlei”, Wesley era o goleiro sempre, (não dava pra disputar a bola com ele, primeiro pelo tamanho e, depois pela falta absoluta de habilidade com a bola, (era perigoso ele quebrar a perna de um numa dividida – nós éramos muito menores). Ele era assim: sempre sorrindo, deixando à mostra seus dentes cariados, ria de tudo que contássemos a ele (sua risada nos divertia, era contar uma piada, sem pé nem cabeça, que ele gargalhava como se fosse a coisa mais engraçada do mundo). Um dia, eu o vi sozinho no campinho onde brincávamos, ele parecia procurar alguma coisa e eu, muito curioso, fui até ele para saber do que se tratava. Nesse dia ele estava muito estranho. Não tinha aquele costumeiro riso ingênuo no semblante, mas trazia um olhar triste, quase choroso. Eu perguntei o que se passava e ele não respondeu. Perguntei novamente e ele afastando-se de mim respondeu com uma pergunta: “ Você gosta de mim?”, eu meio desconfiado respondi que sim. Ele continuou “Você não conta para ninguém se eu disser o que eu tenho?” (claro que eu não ia contar porque no fundo eu tinha um pouco de medo dele, perto de mim ele era enorme). “Eu estou com vontade de comer um peixe daqueles do armazém do seu pai, você dá um pra mim?” (Seus olhos brilharam quando eu disse sim, mas seus trejeitos continuavam de tristeza). Mais que depressa eu desabalei até o armazém e, sem pedir para ninguém cortei um pedaço do bacalhau da caixa, enrolei num pedaço de papel e, cheio de orgulho, levei até ele. Por uns instantes ele ficou analisando o presente, olhou fixamente em meus olhos por um bom tempo, não disse nada e saiu caminhando apressadamente tirando lascas no petisco e comendo com “gosto”. Nos próximos dias eu não o vi. Era normal quando a gente chegava ao campinho ele já ter arrumado a rede, ou varrido algumas folhas que caíram durante a noite. Ninguém sabia dele. Chegamos a pensar que sua família havia mudado para outra cidade e por isso ele tinha sumido. Como fazia falta nosso grande amigo! Passados alguns dias, eu estava com meu pai no armazém, sentado num banco pernalta no lado interior do balcão de vendas, quando entrou uma senhora muito velha, rosto todo enrugado, muito magra, baixinha, com vestidinho de flores coloridas, puxando pela mão aquele homenzarrão. Ele sempre foi estranho, mas naquele dia era tamanha a estranheza dele que nem me reconheceu, nem mesmo depois da minha insistência em lhe dizer bom dia. A senhorinha, chamando meu pai pelo nome começou a relatar o que tinha acontecido dias passados. - Olha o senhor nem vai acreditar, mas o Wesley estava indo embora com um pedaço de peixe que ele ganhou de vocês quando um malandro pediu um pedaço e ele se negou a dar, o senhor sabe, ele não “bate bem da cabeça”, parece uma criança, age como criança; sabe o que esse rapaz fez? Tentou lhe tomar o pedaço de peixe, ele reagiu naturalmente, qualquer criança reagiria, mas o marginal, não contente em tomar o embrulho, o agrediu violentamente atingindo sua cabeça com uma pilha de rádio que trazia escondida no bolso da calça. Ela, na sua simplicidade, pegando Wesley pela mão e o trouxe bem próximo ao balcão onde estávamos e tirou o seu chapéu para apreciarmos o osso da testa (osso frontal) quase que totalmente afundado; o nariz, a boca e as orelhas, também traziam as marcas do espancamento. Eu estava atônito - me culpava - afinal eu que tinha dado o pedaço de peixe a ele. Mas, eu também não podia ter culpa; como eu poderia imaginar que fosse acontecer essa tragédia. Eu não podia entender como uma pessoa tão dócil e alegre poderia sofrer esse tipo de agressão e por um motivo torpe, caracterizando a violência pela violência, ou seja, absolutamente banal. Chamar esse covarde de animal seria um desrespeito para com os bichos. Pela primeira vez vivia um sentimento de culpa. Resvalava em minha alma o sentido de valor humano e, ao mesmo tempo, da tragédia, da bestialidade, da futilidade, do valor da vida de uma pessoa que, sem posses materiais, não tem como se defender nem como tratar suas feridas. Wesley nunca fez mal a ninguém. Seu problema era só seu. Nunca precisou massacrar quem quer que fosse, para aplacar as suas dores. Eu não o vi mais depois desse dia, só fiquei sabendo por um amigo que ele havia morrido devido à gravidade dos ferimentos e da falta de cuidados médicos com os mesmos. Talvez tenha sido o dia mais triste dos meus primeiros dias de adolescência. Ah! O criminoso sequer foi preso.
 
 
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