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CRÔNICAS


Alunos brilhantes
No meu primeiro ano de atividade no exercício do magistério, tive um aluno, que até hoje, eu o considero o mais atípico de todos. Era muito eficaz, educadíssimo, estudioso
05.FEVEREIRO.2016

Alunos Brilhantes

                       No meu primeiro ano de atividade no exercício do magistério, tive um aluno, que até hoje, eu o considero o mais atípico de todos. Era muito eficaz, educadíssimo, estudioso, tinha as melhores notas da turma. Pesquisador e líder nato. Quase nem se notava que ele era um garoto muito pobre, a não ser pelas roupas “batidas” e o “kichute” que usava e, para completar, a mãe tinha problemas de saúde e o pai vivia de pequenos serviços, os ditos “bicos” , e morava de favor numa pequena casa cedida pela  patroa da sua mãe. Na sala de aula, ele tinha o costume de ler revistas, jornais, livros, etc, porém, quando eu entrava, ele abria o caderno e colocava o que estivesse lendo, sob a carteira, quase de forma automática. Com o passar do tempo, ele já não mais guardava os seus materiais de leitura. Um dia, depois de uma avaliação, pedi o seu caderno e, pra minha surpresa, não tinha nada escrito nele. Claro que perguntei a razão. Ele, com a sua costumeira calma, disse que não tinha necessidade de copiar, ele conseguia ter tudo em mente. Eu fiquei sem saber muito bem o que fazer primeiro pela inexperiência como mestre, outra, pelo fato em si. Aproveitei o ensejo e solicitei a revista que ele estava lendo. Aí a surpresa foi maior ainda. Era simplesmente a Time. Engoli seco. Faltou-me ar. Mas, tomei coragem e perguntei se ele sabia inglês. Timidamente me respondeu que estava estudando sobre manipulação de “softwares” e que não encontrava nada em revistas brasileiras. Eu, estático, sem saber do que se tratava, (sem saber nada de inglês e muito menos o que era “software”), mas, como todo “bom professor iniciante”, não ousei perguntar de que tratava tal assunto, afinal, quem era o professor ali. Ele também ficou surpreso. Pois eu, não o “mandei” guardar aquele material estranho à matéria e “copiar” o que interessava.

                        Sabe a lição que tiro desse episódio? Os piores alunos são aqueles que sabem mais, que possuem mais informações, ou que são mais inteligentes do que os seus mestres (esses pupilos sofrem, e quanto!). Mas, infelizmente, pela superlotação das salas, não conseguimos detectar a todas as mentes brilhantes que em nossa frente se sentam, às vezes, durante anos, e que sem querer, os fazemos meros copistas, ou pior, reprodutores de conhecimentos, que nem nós, verdadeiramente dominamos.

 
 
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