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Meu Tio Juvenal
Tio Juvenal era o que podemos chamar de homenzarrão. De porte físico avantajado. Muito trabalhador. Apesar da cara séria (confundida as vezes com cara de mau), era um contador de histórias de caça, pesca, aventuras no mato e na cidade e, principalmente, de assombração. Dono de um humor impressionante, não só contava piadas de improviso, quando distribuía respostas de fazer seu "público? cair na risada.
29.OUTUBRO.2016

Meu tio Juvenal

 

     Tio Juvenal era o que podemos chamar de homenzarrão. De porte físico avantajado. Muito trabalhador. Apesar da cara séria (confundida as vezes com cara de mau), era um contador de histórias de caça, pesca, aventuras no mato e na cidade e, principalmente, de assombração. Dono de um humor impressionante, não só contava piadas de improviso, quando distribuía respostas de fazer seu “público” cair na risada.

     Eu tinha pouco mais de nove anos nessa época, pouco entendia os duplos sentidos dos “causos” do tio “Juvenar” (como era chamado por todos), mas ficava todo radiante quando no final da tarde começava a preparar sua fogueira e mandava meu primo mais velho, o Jovecir, buscar umas espigas de milho, (era sinal que naquela noite haveria contos e causos na frente da pequena casa de taipa pintada à cinza de fogão e barro branco do terreirão de café). A conversa entrava na noite, regada a um bom e forte café; um cigarrinho de palha e uma pinga das boas (que ele mesmo fazia). Vinha gente de toda redondeza - mesmo os que não eram convidados para ouvir aqueles deliciosos causos (e contar também, tio Juvenar era de espírito democrático). Eu ficava com os olhos arregalados com as “histórias verdadeiras” de vultos e vozes noturnas; fantasmas e caveiras ambulantes; eu ria muito, mesmo sem ter entendido a piada e comia muito milho verde e pipoca acompanhada de café e chá de erva cidreira preparada pela tia Jovelina.

     Eu, na época, estava morando na casa deles. Tive inclusive que deixar a escola depois que uma grave doença havia levado minha mãe para um dispensário em outra cidade e o único momento em que eu sorria era naquela roda de bate papo promovido pelo meu tio. Ele nunca foi de dar muita atenção aos filhos, nem tampouco a mim; mas mesmo assim eu era seu fã incondicional.

     Um dia ele me chamou pra ajudar a ensacar um pouco de arroz, eu fui correndo, sem pedir explicações. Enquanto ele tirava o cereal de uma espécie de caixa de tampa basculante com uma concha, ele foi me contando uma história que, creio eu, acabou por modificar a minha vida, o meu futuro.

     - Sabe meu rapaz - disse ele - com a voz modificada, (mais grave e mais serena que de costume), quando eu tinha sua idade eu morava num vilarejo no sul do Estado de Minas Gerais. Éramos em 12 irmãos legítimos e mais dois “pegos pra criar” (que tinha sido promessa de minha mãe). A situação era ruim. Só não faltava o básico porque o patrão deixava a gente plantar nas grotas e criar uns animais. O pouco de dinheiro que aparecia vinha dos braços dos meus irmãos mais velhos que faziam diária nas fazendas vizinhas.

     Um belo dia apareceu em minha casa uma moça, cabelos compridos bem claros, jaleco branco, óculos, o que me chamou a atenção de tal maneira que não resisti e fui ver quem era, ou pelo menos, o que queria ali uma criatura tão diferente das que eu costumava ver no meu dia-a-dia; de que se tratava? A curiosidade em mim sempre foi muito grande, (frisou ele). Eu fiquei observando da porta da sala, (com o corpo para fora e a cabeça para dentro). Ela conversava com a minha mãe sobre a escola que havia sido inaugurada próximo à sede da fazenda e que ela devia matricular pelo menos os mais novos no curso primário para aprenderem a ler e escrever. Meu coração estremeceu, disse ele, era meu sonho! Sempre me imaginei escrevendo, nem que fosse só meu nome, ou as cartas para a tia Jandira, (minha mãe pagava para uma vizinha distante escrever), sempre quis ter pelo menos um lápis, mas quando eu pedia para o meu pai a resposta sempre era a mesma: lápis de caboclo é enxada!

     Mas naquele dia tudo parecia diferente. Minha mãe, e minha irmã casada, sentadas à mesa no velho banco de peroba que meu pai havia construído, com aquela criatura que à minha vista mais se parecia com um anjo. Não demorou muito e minha mãe me chamou. Eu não corri, eu voei! Um frio me invadiu a barriga quando minha mãe disse:

- cumprimenta a professora, cadê os modos? Eu, de tão nervoso, estendi a mão esquerda (mas ela entendeu, tenho certeza). Ela perguntou meu nome e eu respondi: “Juvenar”, - ela com um sorriso hipnotizador, me corrigiu: é Juvenal meu filho; se diz Juvenal. Eu não pensei em nada, eu estava com os olhos fixados naquela beleza quase santa.

- Você quer estudar? Ela me perguntou.

– Claro que quero, se a mãe e o pai deixarem, é claro!

– Vão deixar sim, tenho certeza, completou com sua voz suave e doce.

     Eu saí daquela mesa como quem sabe voar. Eu ria, eu gritava: eu vou para escola! Eu vou aprender a ler e escrever! Depois ia estudar mais e mais e, como aquela moça, também me tornaria um professor. (Naquele momento, enquanto me narrava essa história, seus olhos brilharam com as lágrimas que teimavam em descer rosto abaixo).

– E depois o que aconteceu? – perguntei eu.

Foram dias maravilhosos, acho que os melhores da minha vida até hoje. Eu nem conseguia dormir direito de tanta felicidade esperando o dia de começar a estudar.

     Passados uns três dias meu pai chamou, a mim e outros dois irmão que também estavam matriculados e nos entregou umas bolsas de carregar nas costas, (que a gente chamava de “piquá”), com um caderno de linhas, um de quadrinhos, outro de desenho e ainda um de caligrafia... e lápis, borracha, apontador... (minha mãe do céu, que alegria!). Eu não enxergava ali um material escolar, eu enxergava o futuro. Eu via ali a liberdade em forma de utensílios escolares. Eu tinha certeza que aquilo era magia pura; era verdadeira benção de Deus, (tio Juvenal, nesse momento, chorava). Ele escondeu os olhos mareados de mim, virou-se para o lado, sacolejou o saco com arroz e continuou sua narrativa.

 – No amanhecer do sábado seguinte, eu acordei com meu pai aos gritos com meus irmãos mais velhos e com os animais que atrelava na carroça, eu pensei,

onde estarão indo a essa hora?; Porquê colocar os animais nas carroças se ainda não é tempo de ir a cidade comprar os mantimentos?

Minha mãe entrou devagarinho no nosso quarto e foi acordando um por um. Eu queria saber aonde íamos; o que estava acontecendo. Ela não respondia nada. Eu só podia ver que seus olhos estavam cheios de lágrimas. Eu insistia na pergunta, mas ela me mandou perguntar para meu irmão porque ela não tinha coragem de responder.

- João, gritei - o que está acontecendo? Ele respondeu rispidamente como fazia meu pai:

- “Estamos indo pro Paraná moleque, e vê se levanta logo pra ajudar carregar os “trens” porque o pai quer sair antes de amanhecer o dia; o pai disse que vamos sair dessa miséria deixando a roça para trabalhar na construção da estrada de ferro. Meu irmão disse isso e voltou para a labuta, imitando a cara de mau que meu pai fazia quando queria agilidade.

- Meu rapaz, disse tio Juvenal, aquela manhã representa para mim o fim de um sonho, pois selou-se ali o meu destino: o de ser caboclo para o resto da vida.

    Ele virou-se devagar, colocou as duas mãos em meus ombros e, com lágrimas nos olhos, disse: você é diferente, inclusive dos meus filhos, porque eu só os ensinei a serem caboclos; volta aos teus parentes da cidade, até a tua mãe sarar, vai estudar, seja alguém na vida.

- Eu vou te contar um segredo - disse ele - como eu gostaria de ter me formado para ser professor. Agora ele chorava muito e estendia as palmas de suas mãos.

– Vê essas mãos? São de trabalho sim! Trabalho valoroso, honesto, porém desvalorizado pelo fato de ser mão de analfabeto. Segue meu conselho e me fará um homem feliz, recuperado dessa imensa frustração.

     Eu ouvi os conselhos daquele homem de aparência rústica e de alma polida, nobre. Fui para a cidade. Voltei a estudar e até o presente momento, quase cinquenta anos depois ainda estudo juntamente com meus alunos e alunas, em especial, do curso de formação de docentes.

     Não demorou muito tempo e Tio Juvenal se foi dessa vida, infelizmente, sem ter me visto receber o diploma de professor na Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Jacarezinho-PR.

 

 
 

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