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O Curso
Eu tinha então quinze anos, enquanto descia da escola, de volta para casa, observei um cartaz fixado na parede de uma loja. Parei, li com atenção, me interessei. Era um curso oferecido pelo SENAC: Curso de Prática de Escritório. Não perdi tempo. Fui até o local indicado e fiz minha inscrição.
13.JUNHO.2018

O Curso

(Prof. Davrison Anselmo)

 

Eu tinha então quinze anos, enquanto descia da escola, de volta para casa, observei um cartaz fixado na parede de uma loja. Parei, li com atenção, me interessei. Era um curso oferecido pelo SENAC: Curso de Prática de Escritório. Não perdi tempo. Fui até o local indicado e fiz minha inscrição.

Na data de início, eu fui o primeiro a chegar no local, (pelo menos uma hora adiantado... ansioso!). O Professor já estava no local. Fiquei conversando com ele, dizendo do meu desejo de trabalhar num escritório, no que fui prontamente incentivado. Ele perguntou se eu já trabalhava. Minha timidez me fez dizer: não! Ainda não trabalho! (Fiquei com vergonha de dizer que era engraxate... me dói até hoje esse não). Não demorou muito, os demais inscritos chegaram. A sala de aula ficou repleta. O Professor, batendo palmas, falando alto, pediu para que todos tomassem assento e a aula fosse iniciada.

Ele, o Professor, muito sorridente, com voz grave, contou um pouco de sua história e como um curso semelhante, havia mudado o rumo da vida dele. Em seguida, ele caminhou pela sala distribuindo números, escritos a pincel atômico, num retângulo de cartolina, sempre avisando: “quem trocar de número não vai para o céu! ”. Todos riram. Depois, de dentro de um saco de papel, ele começou a tirar, aleatoriamente, números e formar os grupos de estudo. Meus olhos brilhavam. Onde vou ficar? Com quem? Estava eufórico!

Quando ele chamou quatro números, era como ele estava fazendo, me levantei rapidamente, levantei a mão e fui para a mesa já preparada com quatro cadeiras. Quando me aproximei, aquela euforia inicial, deu lugar ao meu lado tímido. Uma menina fazia parte do grupo. Não era uma menina qualquer. Elegantemente vestida com roupas da moda. Óculos escuros. Relógio reluzente. E... aos meus olhos ... linda!

Olhei em minhas mãos, ainda com “restinhos” de graxa (eu tinha trabalhado até as quatro horas). Hesitei por uns instantes e, com o sorriso mais patético do mundo, sentei-me. Não fui bem recebido. Nem cumprimentado pelos demais. Fiquei em silêncio, observando tudo o que se passava a minha volta, apesar da cabeça levemente abaixada, numa atitude absurda de inferioridade.

O primeiro dia não foi fácil. As horas não passavam. Os membros do grupo discutiam entre eles sobre as tarefas. Eu estava ali, no meu pensar, apenas esquentando cadeira e escondendo as mãos o tempo todo. Para piorar a situação, Eliane (era o nome da “bonitinha”, riu do tamanho do meu lápis, “um toquinho”. Só não chorei e não saí correndo, porque eu estava admirando a forma com que o Professor conduzia a aula. Com bom humor e muito conhecimento.

No dia seguinte, eu não fui engraxar. Eu que mal terminava de comer, pegava a caixa e corria para o ponto de ônibus da Viação Joia, ao lado da Igreja Matriz. Minha mãe quis saber da minha decisão de não trabalhar naquele dia, mas eu não respondi. Revirei gavetas em busca de lápis melhor, (ou pelo menos maior). Não achei! Lavei compulsivamente as mãos durante o dia todo. Coloquei a minha melhor roupa e parti para o segundo dia com a mente pulando: se ela rir de mim novamente, saiu da sala e não volto nunca mais!

A aula estava interessante. Juros e Porcentagem. O Professor distribuiu as folhas mimeografadas, explicou métodos de resolução, fez alguns exemplos  no quadro e deixou-nos à vontade para resolvê-los. Eles liam e reliam, e nada! Eliane virou-se para mim e perguntou se eu sabia alguma coisa daquela matéria. Rapidamente resolvi o primeiro exercício. Queriam saber como: eu expliquei! Acabei resolvendo a folha toda com ela muito perto de mim. Parecia atônita. Seu olhar, em relação a mim, havia mudado. Aquele ar de desprezo do primeiro encontro, parecia ter se tornado em admiração. Ela nem mais falava com os outros membros do grupo. Naquele dia eu consegui sorrir.

Os dias passaram depressa. Na sexta-feira, último dia do curso e dia da prova. O professor mudou a tática. “As provas deverão ser feitas em dupla! ”. Imagina quem sentou-se do meu lado? Sim, ela, Eliane, por quem eu quase “morri” de vergonha. A prova estava fácil. Rapidamente resolvi todas as questões, com ela, “fazendo de conta”, que me ajudava. Fomos os primeiros a entregar. Ficamos conversando enquanto aguardávamos a dispensa. Ela quis saber se eu trabalhava: eu disse não, claro! Ela então me perguntou se eu gostaria de trabalhar com um tio dela. De pronto eu disse sim! Combinamos então para o dia seguinte, no sábado de manhã, quando haveria uma confraternização, para a gente ir até a loja de seu tio, (onde fui contratado na mesma hora!).

Durante a “festinha”, o Professor anunciou que ia entregar os certificados e alguns brindes. Todos nós ficamos atentos. Ansiosos até (principalmente eu...). Ele, para a entrega, começou a chamar em ordem alfabética, porém, pulou do “D” para o “E” sem me chamar. Tentei protestar, mas Eliane fez um gesto de calma com a mão. A apreensão tomou conta de mim. Todos já haviam recebido o “tal certificado”, quando o Professor, convidou a Secretária da escola onde o curso estava sendo realizado, para uma entrega especial. Disse bem alto o meu nome. Eu, ainda sem entender direito, fui a frente e recebi o papel das mãos da elegante Secretária. O professor se aproximou, me deu um grande e demorado abraço sussurrando no meu ouvido: “guri, há muito tempo ninguém conseguia nota máxima comigo! ”. Deixou-me por uns instantes, apanhando sobre a mesa uma linda bolsa (com uma estampa do Mickey), recheada de lápis, canetas, canetinhas coloridas, régua, compasso, esquadro, transferidor... etc ... e, um “cadernão” de espirais. Ele percebeu meus olhos brilhantes pela lágrima que teimava em cair e disse: Esse presente você ganhou da Eliane, sua colega de grupo! (Dirigi meu olhar a ela e a vi toda emocionada). O meu é outro: (colocando a mão no bolso do jaleco, com os olhos mareados como os meus) ... a minha própria caneta!

 
 

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